
MMW:
"Não é à toa que o contrabaixista Chris Wood, em entrevista ao UOL, afirmou seu otimismo em relação à cena jazzística norte-americana atual. Com 15 anos de estrada e uma boa dezena de álbuns em seu currículo, sua banda principal, Medeski, Martin and Wood, é capaz de levantar um público de maneira difícil de ser igualada por seus contemporâneos do (vá lá) jazz. Wood diz isso com uma ponta de vingança. Afinal, quando seu trio começou a produzir, no início dos 90, o conservadorismo da geração que se convencionou chamar de young lions dominava o jazz. MMW e seus colegas de espírito, como Marc Ribot e Dave Douglas, comiam pelas beiradas. Hoje, a indústria do jazz tradicional vive uma indigência jamais experimentada, e os músicos buscam saídas. "Vejo que os tradicionalistas daquela época estão procurando formas mais criativas", diz o baixista. E não é para menos.
O segundo show do trio nova-iorquino na excursão deste ano pelo Brasil lotou o Bourbon Street com o tipo de público que a indústria fonográfica mais persegue: jovens, entre os 20 e os 30, interessados por música o suficiente para, de fato, comprar discos. Essa já é uma tradição no trabalho de MMW. Em 1996, com o lançamento de seu disco mais popular, "Shack-Man", o trio firmava posição como, possivelmente, o grupo de (vá lá de novo) jazz mais popular entre jovens nos EUA. Sua mistura de transe, psicodelia, funk e soul jazz teve apelo imediato entre os universitários que escutavam drum and bass, trance e os sons das jam bands como Phish, que, na trilha do Grateful Dead, misturavam rock com todo tipo de material que proporcionasse longas improvisações que abastecessem tanto o corpo quanto a mente. O notável é que, se bandas como Phish mantiveram entre seus ouvintes essencialmente aquelas mesmas pessoas de meados da década passada, o MMW segue atraindo gente que tem 20 anos agora, em 2006.
Em vez de escutar trance e drum and bass, essas pessoas se dedicam, hoje, a outras formas de música eletrônica e, especialmente, ao hip hop, com os quais o MMW mantém a mesma tênue relação que estabeleceu com os sons mais populares dos anos 90. Dito apenas dessa forma, pode parecer que o trio faz concessões a estilos mais em voga para obter sucesso. Mas quem estava presente ao show do Bourbon dificilmente chamaria o som da banda de oportunista ou comercial. O que se viu foi um público jovem - junto com os fãs dos anos 90 e aqueles de todas as idades que apreciam improvisos e invenções - reagir a um som na melhor tradição experimentalista do jazz como se estivesse assistindo Franz Ferdinand, TV on the Radio ou DJ Shadow.
No início, John Medeski (teclados), Billy Martin (bateria e percussão) e Chris Wood (baixo acústico e elétrico) testaram a paciência desse público. Foi quase uma hora de pequenos ruídos de teclado e percussão (sempre com a âncora fiel do baixo de Wood) explosões improvisadas ad lib e experimentalismos à Cecil Taylor inseridos no repertório menos acessível da banda. Nas raras oportunidades de se divisar alguma melodia cantável, a banda apresentou uma tela em que a audiência buscou adivinhar (ou projetar) a música de que se tratava. Entre as possibilidades ouvidas entre a platéia (e expressadas), estiveram Peter Tosh ("Legalize It"), PJ Harvey, Bobby Timmons ("Moaning"), Tom Jobim ("Garota de Ipanema"), Ray Charles ("What'd I Say") e outras que este repórter não teve a oportunidade de ouvir.Quando estava quase no ponto de perder o público, com a conversa chegando num tom mais alto e muitos recorrendo ao bar, o grupo mostrou a experiência adquirida com muita estrada (muita mesmo: os integrantes já chegaram a vender seus apartamentos porque passavam todo o tempo morando dentro de uma van). Atacou com o tradicional gospel "Is There Anybody Here that Loves my Jesus", que abre o seu disco mais popular, "Shack-Man", de 1996. A partir desse momento, e por quase todo o tempo que se seguiu ao intervalo, a banda não abandonou mais o groove, ora relaxado, ora mais frenético. O público respondeu com evidente empatia, especialmente nas outras duas faixas de "Shack-Man" apresentadas. No bis, com a catarse já instalada entre o público, a banda misturou "Bemsha Swing", de Thelonious Monk com "Lively Up Yourself", de Bob Marley, em versão acústica, antes de embarcar numa bela melodia, bem calma, que foi morrendo aos poucos e preparando a platéia para, depois de duas horas e meia (o show se iniciou por volta das 23h e encerrou à 1h30), voltar para casa.
Como se não bastasse a ótima experiência estética que foi o segundo show de MMW no Brasil em 2006, a noite ainda valeu, portanto, por sua dimensão comportamental. Afinal, não é sempre que se vê improviso e experimentação no palco conviverem com uivos de aprovação, camisetas de Raul Seixas e meninas se beijando na platéia.
O trio norte-americano Medeski, Martin and Wood conversou com a TV UOL poucas horas antes de subir ao palco do Bourbon Street, em São Paulo, na quinta-feira (23).
Leia abaixo a transcrição da entrevista:
O show da noite anteriorBilly Martin - Foi ótimo, divertido. Boa energia no palco e fora, o público foi ótimo.
Chris Wood - A disposição foi pouco usual. Público dos dois lados.
John Medeski - Gente em todos os lugares. Foi bacana.
Próximos discosJM -
Recém gravamos um novo disco com John Scofield, como quarteto, um trabalho de cooperação. Nós mesmos vamos lançá-lo, em nosso novo selo.
BM - Novo e independente.
Público jovem.BM - Acho só que os jovens gostam de nossa música, assim como os velhos. Quantos aos jovens, talvez seja porque grande parte (de nossa música) é dançável, excitante, experimental e "hardcore", num certo sentido.
JM - Nós buscamos inspiração em todo o tipo de música popular que está acontecendo, especialmente nos grooves. Acho que as pessoas se ligam a isso, ao ritmo do seu tempo. Por isso os garotos se ligam a isso. Mesmo que façamos (música) de maneira experimental, ritmicamente nós nos baseamos em formas de música para dançar.
CW - Muita música é feita com DJs, com "tecnologia", não somente com músicos que aprenderam a tocar seus instrumentos. Por isso, acho que é excitante, às vezes, ver gente que realmente pode tocar seus instrumentos e improvisar sobre esses tipos de música de que você falou (hip hop e tecno).
A cena de jazz nos EUA hojeCW - Quando fazíamos parte da cena do downtown de Nova York, eu, pessoalmente, era muito mais atraído a ela do que à cena do jazz tradicional porque era menos elitista, mais mente aberta, experimental. Tentava-se todo tipo de coisas diferentes, havia muito apoio, todos tocavam nas bandas uns dos outros, era muito bacana. Acho que mudou um pouco. Hoje, há muitos músicos de jazz que eram tradicionais naquela época e hoje estão misturando diferentes tipos de música. Não estão mais tentando ser tão experimentais. As mentes estão se abrindo, os limites entre as formas musicais estão ficando menos nítidos. Isso pode ser bom para a música.
O disco para crianças que eles estão preparandoCW - É para adultos infantis também
JM - Vai ter crianças nas gravações também. É um disco para crianças. Mas acho que toda nossa música é para crianças!
O que eles estão escutandoBM - Elliott Smith
JM - Coco Rosie
CW - Roy Orbison
Hermeto PascoalBM - Nós o encontramos no Central Park um dia em que ambos estávamos tocando lá. Ele estava escrevendo a música de número 365 daquele ano (o projeto se chama Calendário do Som) porque ele estava fazendo 60 anos e achava que ia morrer. Ele tocou sanfona para nós, um pequeno concerto atrás do palco. Nós fizemos "buááá" (imita choro).
CW - E a chaleira!
BM - Ah, é, teve a chaleira (imita Hermeto tocando uma chaleira).
http://musica.uol.com.br/ultnot/2006/03/24/ult89u6361.jhtmMMW-Eletric Tonic:
http://rapidshare.com/files/7737790/Electric_Tonic.rar.htmlAgradecimentos á Luiz Gustavo Mascaranhas por ter upado esse excelente álbum pra gnt.
Antes tarde que nunca os créditos.
Valeu Luiz!
Interessante Blog:
"República de Fiúme"
http://republicadefiume.blogspot.com/